22 de março de 2009

"Gran Torino" por Nuno Reis

Seja o argumentista que o imagina, o realizador que o dirige, ou o actor que lhe dará vida, quem faz um filme tem de se entregar totalmente à arte. É na película que ganhará a imortalidade e tem de pensar em cada filme como sendo o seu último. Com a idade muitos ganham consciência desse facto. Veja-se os exemplos de Richard Jenkins e Frank Langella que foram nomeados para Oscar pela primeira vez, ou de Alan Alda e Peter O’Toole que nesta década retomaram a glória do passado. Outros há que, tendo mantido a carreira sempre ao mais alto nível, decidem fazer recordar o passado. É isso que Clint Eastwood e o seu Gran Torino pretendem. Em apenas duas horas sintetizam o que é ser americano e como foi ser Eastwood, como aqueles auto-retratos que alguns dos grandes pintores deixaram. É a obra definitiva do actor em todos os sentidos.

Walt Kowalski é um reformado que acabou de enviuvar. Os filhos e netos deixam-no envergonhado pelo que quer como única companhia a sua fiel cadela Daisy. A América que Walt tem perante si não é aquela que ajudou a construir. Este herói de guerra recebeu uma medalha por matar coreanos. De regresso ao seu país trabalhou durante 50 anos construindo carros para a Ford, expoente máximo da indústria automóvel americana. Ironicamente o que o rodeia é o oposto disso. Lentamente as restantes casas na vizinhança tornaram-se o lar de numerosas famílias asiáticas e um dos filhos vende carros japoneses.
As mortes podem ser um peso na consciência que lhe assombram as noites, mas na garagem tem ainda um dos Gran Torinos que construiu. Esse é o seu maior orgulho. Walt é um velho descontente e rabugento, mas é também um patriota como poucos que ama o seu país e o seu trabalho.
Crítica social e geracional, "Gran Torino" mostra pelos olhos de Walt uma América frágil, sem princípios ou identidade de tão contaminada por estrangeiros. Uma América moribunda. Walt não teme a morte, receia viver num país que não corresponde ao que ele se esforçou por deixar às gerações mais novas. Um país desrespeitado pelas pessoas por quem ele lutou numa guerra que lhe marcou a vida.

O grito de alerta é dado quando um miúdo lhe tenta roubar o carro. A partir daí vamos ver que Walt ainda tem muito para dar e vai passar o tempo que lhe resta de vida a lutar pelos princípios morais em que foi educado. Convém dizer que o lema da First Cavalry Division a que pertenceu é “vive a lenda” e que se chamam orgulhosamente "a equipa número um da América". Foi exactamente nesses princípios que a personagem foi criada.
Aos poucos vai-se envolvendo com os vizinhos numa autêntica metáfora do que é o seu país. Começa por proteger o seu carro e impedir a entrada de estrangeiros no seu relvado. Quando começa a ter mais contacto explora-os para bem dos outros, ensina-os, protege-os e tenta educá-los à boa velha maneira americana. No melting pot mudam-se os tempos, mudam-se os ingredientes.Se polacos, italianos e irlandeses deram origem ao que é hoje o bom americano, talvez países não europeus mereçam igual oportunidade. Se até agora mexicanos, judeus e pessoas de cor eram só protagonistas de anedotas, é chegada a hora de mostrarem aquilo de que são feitos e provarem que dão americanos tão bons ou melhores que os actuais.

É pena que neste filme quase só se aproveite o actor principal. Bee Vang que devia ser a outra fundação onde assentaria a história tem dos piores desempenhos que alguma vez vi (só digo dos piores por simpatia para com o realizador). Não parece que tenham escolhido só maus actores para contrastar com Eastwood. Christopher Carley como o padre que tenta que Walt se confesse e Ahney Her como a simpática vizinha estão bem, assim como John Carroll Lynch que tem duas cenas para dar humor.

Por enquanto é um bom filme. Para as gerações vindouras será a obra definitiva para compreender um dos maiores actores do século XX. "Million Dolar Baby" era para ser a última interpretação, com o Oscar seria ainda melhor altura para parar. Este trabalho extra, este canto do cisne, é um alerta para os novos tempos e um final de carreira mais adequado a quem foi Eastwood todo este tempo. O papel de Walt Kowalski é a despedida que qualquer cowboy desejaria depois de décadas a lutar pelo bem. No fim resta o orgulho de ter dever cumprido e as botas calçadas.
Até ao ano passado as saudades de Clint Eastwood eram resolvidas vendo um western, Dirty Harry ou "Unforgiven". Lentamente "Gran Torino" vai ganhar fãs até ser a primeira escolha.



Título Original: "Gran Torino" (Austrália, EUA, 2008)
Realização: CLint Eastwood
Argumento: Nick Schenk e Dave Johannson
Intérpretes: Clint Eastwood, Bee Vang, Christopher Carley, Ahney Her
Fotografia: Tom Stern
Música: Kyle Eastwood, Michael Stevens
Género: Crime, Drama
Duração: 116 min.
Sítio Oficial: http://www.thegrantorino.com/

3 comentários:

Diana disse...

"Gran Torino" é, realmente, Clint Eastwood. É fabuloso ver como este senhor consegue transmitir todas as características que quer com um simples arreganhar de lábios. E é realmente pena como todos os outros actores (especialmente Bee Vang) ficaram aquém do protagonista. Espero que Bee Vang tenha a feliz ideia de ter umas aulas de representação antes de voltar ao grande ecrã.

Anónimo disse...

Baixas-te de 4,5 para 4 porquê?

Nuno disse...

Nâo houve nenhuma descida. 4,5 em textos deste ano foi só para "Doubt" e "The Wrestler".