16 de junho de 2012

"Late Bloomers" por Nuno Reis

Quem diz que só há bons papéis para os novos?


O que é o amor? A resposta dos jovens falará de atracção física, e do desejo de ficarem eternamente juntos. Na velhice serão a amizade e a rotina de décadas criadas no casal. Pelo meio há um monstro chamado meia-idade em que por não terem o primeiro tipo e não perceberem que têm o segundo não sabem o que sentem. A vida de Mary e Adam está assim. Aos 60 anos Adam recebeu um prémio carreira, metáfora para “devias estar reformado”. Mary vê isso como um sinal e começa a preparar-se para a fraqueza, os problemas de visão e demais maleitas. Já Adam vê isso como um reconhecimento do seu talento como arquitecto, começa a tentar provar que ainda consegue competir contra qualquer um e reúne um grupo de jovens para um projecto secreto. Essas formas tão díspares de estar na vida vão levar à separação do casal que terão de se redescobrir como indivíduos depois de meia vida juntos.
É curiosa a tradução feita ao título. Enquanto em muitos países se ficaram pelo inglês “despertar tardio”, no sentido de descobrir tarde a juventude, em Portugal fomos para o invulgar “3x20 anos” do francês que remete para um regresso, uma terceira juventude. São duas formas distintas de ver o filme, margem permitida por não termos informações suficientes sobre os primeiros anos. No entanto sabemos que Adam era um workaholic e Mary era-lhe totalmente dedicada pelo que podem ter desperdiçado a juventude. Considero o título original e a ideia de que os 60 são os novos 20 como a mais fiel ao filme e a que deve ser vivida. A juventude é um estado de espírito e enquanto não pararmos não nos deixamos apanhar pela velhice. Aos 60, com os filhos já crescidos e (teoricamente) empregados, com a reforma quase à porta (até ver), somos livres para viver novamente.
Apesar de ser muito americano, o estilo de Julie Gavras (filha de Costa-Gavras) e do cinema europeu está presente e as personagens italianas não o escondem. Grandes desempenhos de Isabella Rossellini, William Hurt e especialmente Doreen Mantle como líder de um grupo dos velhotes mais vivaços que o cinema já teve, tornam este filme uma delícia que se apreciará cada vez mais com a avançar da idade Aqui é-nos dito frontalmente para não pararmos de viver nem de amar. O importante é sermos felizes. Por isso mesmo é um filme que deve ser revisto a cada cinco anos no mínimo.

Late BloomersTítulo Original: "Late Bloomers/Trois Fois 20 Ans" (França, Bélgica, Reino Unido, 2011)
Realização: Julie Gavras
Argumento: Julie Gavras, Olivier Dazat, David H. Pickering
Intérpretes: Willia Hurt, Isabella Rossellini
Música: Sodi Marciszewer
Fotografia: Nathalie Durand
Género: Drama
Duração: 95 min.
Sítio Oficial: http://trois-fois-20-ans.gaumont.fr

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